Almanaque vem do árabe al-manakh, que é o "lugar em que o camelo se ajoelha". Ponto de reunião dos beduínos para conversar e trocar informações sobre o dia-a–dia.


domingo, 2 de março de 2008

65º DIA - TEMPESTADE - Trilogia

O horizonte é branco. A neve encobre o pára-brisa. Um corpo achado na neve. Caído longe de tudo, sem documentos, sem identificação e ainda por cima com um tiro na perna é mais do que um provável crime, é também um mistério. Transportar um corpo congelado nunca é agradável, não por medo, mas por que é difícil carregar e acomodar no carro. Não se pode mudar as feições azuladas. Não se pode fechar os olhos fixos e congelados. Nem fechar a boca aberta, quase que a balbuciar um pedido de socorro. Não se pode mexer um membro sem quebrá-lo o que no caso não pode ser feito, afinal trata-se de um possível homicídio................................................................... Penso no que terá acontecido? Quem o teria levado até lá? Afinal ele não foi sozinho até lá. Não encontrei nenhuma arma! Nada na verdade que possa servir como pista, como indicio!
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A tempestade de neve já dura algumas horas, mas estou próximo da cidade. Vou deixar o corpo no necrotério e esperar a chegada do legista na próxima segunda-feira!............................................. Olho pela janela é só vejo a neve que cai.............................................. O horizonte é branco.

65º DIA - PASSOS - Trilogia

O horizonte é branco. Nada naquele local chamaria a atenção não fosse o caminhar sôfrego daquele homem. Como pode o instinto fazer com que nas situações mais inóspitas lute-se pela vida, mesmo quando o ambiente diz ser impossível que isso aconteça. Ter sido baleado seria suficiente para fazê-lo desistir de tentar caminhar na imensidão da neve, no entanto ele não o fez. O seguimos sem entendermos porque ele caminhava em frente sem saber ao menos onde estava. Ele havia perdido sangue o suficiente e o seu andar cambaleante entregava a debilidade do corpo.......................................................................................................................................................... Ele caminhou por quase uma hora e percebemos que ele cambaleava tentando dar um passo após o outro.................................................... A sua queda foi suave. Pudemos ver o momento em que se ajoelhou até cair com o rosto colado na neve..................... Esperamos pelo menos quarenta e cinco minutos até termos certeza de que não haveria chances de sobrevivência............................. Contávamos que a neve para encobrir o corpo. Enquanto nos afastávamos olhei para trás e já não podia vê-lo, apenas a imensidão......... O horizonte é branco.

65º DIA - NEVE - Trilogia

O horizonte é branco. Não existe o distante, apenas a dimensão do ir. O frio é denso, palpável............................... Nesse lugar o tempo, as sensações, os sentimentos, tudo ganha novas proporções. Não se conhece a dimensão da solidão até se ver vagando pela neve, orientando-se pelo norte....................................................................................... A qualquer momento pode o tempo mudar e você se vê preso a sua própria solidão. Em nenhum outro lugar pode-se morrer sozinho. Pode-se morrer esquecido numa grande cidade, mas é aqui que podemos de fato morrer sozinho. O perigo iminente da morte, que ronda nossos dias, acaba por se tornar um pensamento constante......................................................Preciso adiantar o passo. Caminhar sobre a neve não é algo fácil, ainda mais depois de ser baleado na perna. A dor tem mantido minha atenção voltada na direção do que espero ser minha chance de salvação. Consegui estancar o sangramento, mas foi suficiente grande o estrago. Suficiente para me deixar sôfrego e cambaleante...............................................................Devo estar caminhando a quase duas horas. Cada passo agora é um enorme esforço. A perna lateja, e sinto o corpo frio. Cenas desconexas passam pela minha cabeça, a infância, meus pais brigando, o colégio interno, o primeiro assalto, a cadeia, o vôo, o acordo, o primeiro beijo, o acerto, o primeiro tiro, o acidente de carro, a neve, a briga no bar, a esposa, os filhos...............................................................A sonolência. Não sei para onde estou indo. Não consigo me manter de pé..................................................................................... O contato da neve com o rosto queima........................... Não sinto minhas pernas............................. Não consigo respirar direito, o ar gelado resseca a garganta quando aspirado......................Não consigo manter os olhos abertos. Olho para o lado, o horizonte é branco...............

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

64º DIA - Espelho

Espelhos são objetos em cujo reflexo nos reconhecemos como indivíduos, como identidade.
Algumas culturas acreditam que a imagem do espelho trata-se na verdade do reflexo da alma, por isso a associação entre o espelho quebrado e a má sorte.
Desde a sua origem, esses objetos serviram a nossa vaidade por que nos permitem ver como os outros nos verão, podendo mudar aquilo que acreditamos não ser agradável ou belo.
Fazem parte também do imaginário dos contos de fada, em que espelhos mágicos permitem ver o futuro, ou saber como no caso da madrasta má, quem é a mais bela entre todas as mulheres.
Mas há no espelho algo que chama a atenção: todas as vezes que olhamos nele, vemos na verdade o que queremos ver, e mascaramos a verdade para que ela seja agradável aos demais, associando-se assim, a vaidade.
A vaidade é parte da essência humana e quando não dosada, transforma o olhar; passamos a enxergar opaca nossa própria imagem. Vemos aquilo que queremos ver e, às vezes, estamos enganados....

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

63º DIA - SANGUE

Sangue. Assim que cheguei à cena do crime pude ver o sangue espalhado pelo chão e pelo corpo da vítima. Um homem de 32 anos, solteiro, caucasiano, alto e um pouco acima do peso. Estava deitado no sofá da sala com os olhos abertos e um rasgo na garganta... Causa mortis: exsanguinação; Termos técnicos soam patéticos, a morte se deu pelo rasgo na garganta, a perda de sangue foi conseqüência. Não parecia haver sinais de luta, embora pela experiência, diria que o assassino fez com o que o mesmo abrisse os olhos enquanto lhe degolava ao modo de uma galinha. Restava entender os motivos!
Entrar na casa foi tão fácil, nas vésperas de feriado, as pessoas estão mais entretidas com em suas vidinhas que se quer se incomodam com os vizinhos do lado... Pulei o muro da casa e esperei... Podia ver o movimento dentro da casa. A porta da cozinha aberta. As pessoas sentem-se seguras cercadas por muros... Muros não impedem apenas a entrada, mas são como jaulas... Principalmente se só existe uma saída.
Nada de pistas aparentes. O IML removeu o corpo e esperávamos identificar algum parente, mas ele não era da cidade... A central recebeu um chamado dando conta de um barulho alto de rádio que vinha da casa vizinha. Ao chegar na casa a vizinha prontamente informou que achava estranho, mais do que incomodo, pois o vizinho seria um rapaz pacato, que nunca havia incomodado. O policial ao checar percebeu o portão aberto, e chamado o vizinho não respondeu. Na companhia do vizinho, entraram na casa e encontraram o cadáver. A porta da cozinha aberta e o rádio ensurdecedor ligado.
Entrei pela cozinha, e confesso que poderia tê-lo matado ali mesmo, mas prefiro esperar o momento certo. Abri a porta da despensa. Na verdade tratava-se de um vão de escada em que foi posta uma porta. Fiquei ali esperando. A espera me excitava. A lâmina fria percorria meu rosto e o tesão tomava conta do meu corpo. O poder sobre a vida do outro era o mais potente afrodisíaco.
Era provável que tenha esperado dentro da casa antes do crime e, segundo a perecia, o desgraçado se excitava com isso, ao menos era o que dava a entender pelas amostras colhidas por eles. Deve ter ficado ali bastante tempo, e então atacou o rapaz, adormecido no sofá, quando ele deve ter acordado e recebeu o golpe fatal.
Sorrateiro eu me aproximei, e observei alguns minutos. Aproximei-me mais dele até quase sentir sua respiração, tapei-lhe a boca, ele abriu os olhos.... A lâmina fria, o sangue quente e a doce satisfação enfim.
Agora, restava esperar que a polícia científica nos trouxesse outras pistas. Enquanto isso era aguardar até que ele cometesse um deslize e pudéssemos então botar a mão nesse filho da pu...
A polícia espera um deslize, uma falha minha.... Não sabem que até as minhas falhas serão premeditadas... Todos os meus erros serão previstos.... Assim eu garanto... eu o XIII.
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PS: esse texto foi escrito durante a madrugada, depois de ter assistido ao filme 'Zodíaco" de David Lincher. Aliás recomendo o filme.